quinta-feira, 26 de março de 2009

Apreciação crítica

BIOGRAFIA

António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu em Moçambique, na cidade da Beira, em 5 de Julho de 1955. O pai, Fernando Couto, emigrante português natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, do tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dois livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique. Mia Couto publicou os primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. A questão do género literário não é, de resto, a mais importante para este autor, em cuja escrita a prosa e a poesia se conjugam e que escreve "pelo prazer de desarrumar a língua".Em 1972, foi para Lourenço Marques estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e director da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista semanal Tempo e do jornal Notícias de Maputo. O jornalismo moçambicano atravessava nessa altura uma crise profunda e alguns profissionais questionavam a eficácia do seu trabalho. Mia Couto criou entre os jornalistas da época um estilo muito próprio, anunciando a ruptura que se verificaria depois na sua obra literária. Durante muitos anos, o escritor viveu sob o fogo cruzado da guerra de libertação do seu país. De 1972 a 1975 (data da independência de Moçambique) participou na guerra como membro da Frelimo, a frente de libertação liderada por Samora Machel, o que o obrigou à clandestinidade. Em 1985, regressou à Universidade de Eduardo Mondlane, em Lourenço Marques, para se formar em biologia. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca. Actualmente dedica-se a pesquisas nesse âmbito, exercendo também, como biólogo, a profissão de professor universitário, além de dirigir uma empresa de estudos sobre impacto ambiental.


OBRA

Mia Couto é, sem dúvida, uma referência no campo da literatura de expressão portuguesa, sendo actualmente o escritor moçambicano mais conhecido no exterior. A sua obra tem como tema principal a vida do povo moçambicano, um dos mais pobres do mundo, tendo passado por uma guerra civil de trinta anos e onde persiste uma forte tradição de transmissão da literatura e dos saberes essencialmente por via oral. Numa cultura onde se diz que "cada velho que morre é uma biblioteca que arde", Mia Couto tem uma escrita que liga a tradição oral africana à tradição literária ocidental, ligando o saber ancestral sobre o espírito das árvores e das plantas à moderna ciência da Ecologia. “Eu guardo na minha infância, assim, uma coisa muito esbatida, um ponto de referência, as histórias que me eram contadas, dos velhos que moravam perto, vizinhos do outro lado da rua, de um outro mundo, e eu recordo esse mundo encantado até algumas histórias, sobretudo como eles me deixaram uma marca.” (in Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas). O seu estatuto incontestado deve-se não só à forma como aborda os problemas e a vida quotidiana do Moçambique contemporâneo, mas principalmente à criatividade da sua escrita, numa permanente descoberta de novas palavras, através dum processo de mestiçagem entre o português "culto" e as variantes dialectais introduzidas pelas populações moçambicanas. Mia Couto é, assim, uma espécie de mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa.


PUBLICAÇÕES

Raiz de Orvalho – 1999 (poesia)

· Publicado pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) em 1983.
· Livro intimista, lírico, uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária.
Vozes Anoitecidas – 1987 (contos)
Cronicando – 1991 (colectânea de crónicas)
· Este livro reúne crónicas de Mia Couto publicadas na imprensa moçambicana no final da década de 80.
Cada Homem é uma Raça – 1990 (contos)
· "Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia." (excerto de uma história do livro).
Terra Sonâmbula – 1992 (romance)
· Primeiro romance publicado por Mia Couto, tem como pano de fundo a guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Estórias Abensonhadas – 1994 (contos)
· Livro de histórias que retrata o renascer do país depois da assinatura do Acordo de paz.
A Varanda do Frangipani – 1996 (romance)
· O tema que se encontra subjacente nesta obra (que teve uma grande aceitação, quer por parte da crítica, quer por parte do público) é do tráfico de armas, num período inicial de recuperação da guerra.
Contos do Nascer da Terra – 1997 (contos)

Mar me quer – 2000 (romance)

· Este livro foi inicialmente incluído na Colecção 98 Mares, no âmbito da Expo 98.
Vinte e Zinco – 1999 (romance)
· Este livro surgiu de uma iniciativa da Editorial Caminho que visava assinalar o 25º Aniversário do 25 de Abril, estando, assim, relacionado com este tema.
· "Vinte e cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento. Para nós, negros pobres que vivemos na madeira e zinco, o nosso dia ainda está por vir.” (excerto da obra).

O Último Voo do Flamingo – 2000 (romance)

· Este livro é outro dos grandes romances.

Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos – 2001 (contos)

O Gato e o Escuro – 2001 (contos)

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra – 2002 (romance)



PRÉMIOS

Prémio Anual de Jornalismo, Cronicando, 1989.
Grande Prémio da Ficção Narrativa, Vozes Anoitecidas, 1990.
Prémio de Literatura, da Associação de Escritores Moçambicanos, Terra Sonâmbula, 1995 .
Prémio da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo, 1996 .
Prémio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, O Último Voo do Flamingo, 2002.

Em 1998, Mia Couto foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito como sócio correspondente. Foi o primeiro escritor africano de língua portuguesa a ingressar naquela instituição tendo a sua admissão sido decidida por unanimidade.





Apreciação crítica da obra “Cada Homem É Uma Raça”

Verificamos, então, que a vasta obra de Mia Couto engloba não só o género lírico como ainda o género narrativo. Dentro deste género temos romances e algumas colectâneas de contos. Neste universo da sua obra, o livro em análise, “Cada Homem é Uma Raça”, é também um conjunto de contos imbuídos de cultura moçambicana onde o sobrenatural tem um papel preponderante. Com efeito perpassa por toda a obra a crença em forças que estão acima do humano, forças essas que, ora vaticinam sobre as desgraças que vão abater sobre um povo caso do conto A Lenda da Noiva e do Forasteiro, ora arrebatam personagens por entre labaredas como é o caso de Tiago personagem do conto O Embondeiro que Sonhava Pássaros. A miscelânea entre a cultura europeia e a cultura africana verifica-se também a nível linguístico. A este nível são de três ordens as alterações verificadas: fuga à norma – padrão do português europeu, uso de unidades lexicais pertencentes ao crioulo de Moçambique e utilização de palavras “criadas” pelo narrador.

A. Fuga à norma padrão do português europeu

Em todos os contos o narrador, tenha ele um estatuto homodiegético ou heterodiegético foge sistematicamente à norma, podendo ser agrupados os seguintes casos:
· Uso do pronome pessoal forma de complemento indirecto (lhe/lhes) em vez do pronome pessoal forma de complemento directo (o/a, os/as);
· Colocação do pronome pessoal forma de complemento em posição proclítica isto é, antes do verbo ( exemplo: se decidiu em vez de decidiu-se);
· Uso da dupla negativa.



B.Uso de unidades lexicais pertencentes ao crioulo de Moçambique

Apocalipse Privado do Tio guegê: Shote-kulia, Capulana e Ndoé.

Rosalinda, a Nenhuma: Mulala, xipefoe e xicadjú.

O embondeiro que sonhava pássaros: Muska, Mesungueiro.

A princesa russa: Mainatos, Cubata, Cabedula, Compounde, Moleque.

O pescador cego: Concho.

O ex-futuro padre e sua pré-viúva: Kongolote, Chissila, Cushe-cushe.

A lenda da noiva e do forasteiro: Matopada, Nenecar, Lobolo, Cocorico, Kulimando.

Sidney Poitier na barbearia de Filipe Beruberu: Maçaniqueira, Chimandjemandje, Bula-bula, Dákámaus, Mesire, Mezungo, Xikaka, Muana, Custumunha, Shingrese, Kóbiri, Sabola, Raranja, Sabau, Fódia, Canganhiça, Saguate, Matambira, Baba, Plásticos, Fé-de-Cristo, Milandos.

Os mastros do Paralém: Mussodja, Iripo, Canhangulo, Satanhoca, Sacudu, Chamboco, Xicuembo, Espera-pouco, Fungula masso.


C. Utilização de palavras “criadas” pelo narrador - Neologismos

Desconseguir, movente, ademorar, passarinheiro, braqueza, permanecida, compaixonada, ruar, oractivo, distractividades, respirarear, imovente, sograria, exdiferença, penumbrar-se, malvorar-se, omniausência, futurivel, tranquilar-se, intromissionario, sonecar, escutantes, ladrepiar, estórias, indecidir, transpiexpirar, malfazedor.

Para uma total identificação com os valores culturais do povo moçambicano o narrador é personagem em quase todos os contos, uma vez que só o uso da primeira pessoa transmite a cumplicidade vivida entre o narrador e restantes personagens. No caso do conto A Princesa russa o narrador para além de homodiegético é autodiegético, para que a simbiose cultural seja mais conseguida. O discurso indirecto livre é também largamente utilizado neste conto com o mesmo objectivo: o da comunhão plena. São poucos os casos em que o narrador é heterodiegético sendo exemplo desta situação são os contos: Rosalinda, a nenhuma, O embondeiro que sonhava pássaros e O pescador cego (Começa por ser Homodiegético e só passa a heterodiegético a partir do terceiro parágrafo), Os mastros do Paralém, Sidney Poitier na barbearia de Filipe Beruberu.



Conclusão

Estamos perante um escritor a que podemos chamar da terra, sendo esta não só a moçambicana, mas sim o mundo inteiro, uma vez que os valores e os sentimentos são comuns a todo o humano, esteja ele em que lugar for do universo. A relação que cada indivíduo tem com a sua própria terra, no que ela tem de mais intimista é nesta obra explorado, sentindo nós o palpitar das emoções, das alegrias, dos sofrimentos do ser humano. A sua linguagem extremamente rica em neologismos confere aos seus contos a qualidade de percepção da beleza interna das coisas. O recurso ao sobrenatural, ao fantástico envolvem-nos da ambiência do sonho – dominador comum das suas histórias.

2 comentários:

filipalexandrabarroso@gmail.com disse...

Miguel bons conhecimentos e boa reflexão, contudo, podia estar organizada de forma mais simples e resumida. Reveja o texto seguindo essas orientações

Nota: Bom

A professora Filipa Santos

Viviane disse...

Achei bastante simples (entenda como um elogio), bem organizado, com informações bem precisas. Acredito que resumir mais esse texto faria com que o leitor perdesse "o fio da meada". A biagrafia deste autor tudo tem a ver com suas obras, então é interessante que esteja bem completa.
A apreciação da obra que postastes está ótima, serviu como norteadora para um trabalho que estou fazendo. Obrigada.

Nota: Show