terça-feira, 9 de junho de 2009

Exercícios a que recorri

Exercícios de dicção


1. Cada frase deve ser lida calmamente. Primeiro é preciso dizer correctamente aquilo que se lê. Num segundo momento, depois de já se ler o texto com alguma segurança, deve-se tentar dar a entoação e o ritmo que parecerem mais adequados para cada frase.

NÍVEL FÁCIL
1. O rato roeu a roupa do Rei de roma a rainha com raiva resolveu remendar.
2. Três pratos de trigo para três tigres tristes.
3. O original nunca se desoriginou e nem nunca se desoriginalizará.
4. Qual é o doce que é mais doce que o doce de batata doce? Respondi que odoce que é mais doce que o doce de batata doce é o doce que é feito com odoce do doce de batata doce.


NÍVEL MÉDIO
1. Sabendo o que sei e sabendo o que sabes e o que não sabes e o que não sabemos, ambos saberemos se somos sábios, sabidos ou simplesmente saberemosse somos sabedores.
2. O tempo perguntou ao tempo qual é o tempo que o tempo tem. O temporespondeu ao tempo que não tem tempo para dizer ao tempo que o tempo dotempo é o tempo que o tempo tem.
3. Em baixo da pia tem um pinto que pia, quanto mais a pia pinga mais o pintopia!
4. A sábia não sabia que o sábio sabia que o sabiá sabia que o sábio nãosabia que o sabiá não sabia que a sábia não sabia que o sabiá sabiaassobiar.

NÍVEL DIFÍCIL
1. Num ninho de mafagafos, cinco mafagafinhos há! Quem os desmafagafizá-los,um bom desmafagafizador será.
2. O desinquivincavacador das caravelarias desinquivincavacaria as cavidadesque deveriam ser desinquivincavacadas.
3. Perlustrando patética petição produzida pela postulante, prevemospossibilidade para pervencê-la porquanto perecem pressupostos primáriospermissíveis para propugnar pelo presente pleito pois prejulgamos pugnapretárita perfeitíssima.
4. Não confunda ornitorrinco com otorrinolaringologista, ornitorrinco comornitologista, ornitologista com otorrinolaringologista, porqueornitorrinco, é ornitorrinco, ornitologista, é ornitologista, eotorrinolaringologista é otorrinolaringologista.
5. Disseram que na minha rua tem paralelepípedo feito de paralelogramos. Seisparalelogramos tem um paralelepípedo. Mil paralelepípedos tem umaparalelepipedovia. Uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos. Então umaparalelepipedovia é uma paralelogramolândia?

NÍVEL (QUASE) IMPOSSÍVEL
Verbo Tagarelar no Futuro do Pretérito
Eu tagarelaria
Tu tagarelarias
Ele tagarelaria
Nós tagarelariamos
Vós tagarelarieis
Eles tagarelariam

Auto-Avaliação

Acho que mereço um 13 pois publiquei todas as actividades feitas em aula e o debate feito em aula sobre a tourada. Consegui alcançar os objectivos propostos para este periodo através dos exercicios de dicção.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Debate da tourada

A tourada é um espectáculo tradicional de Portugal, Espanha e França, bem como de alguns países da América Latina: México, Colômbia, Peru, Venezuela e Guatemala. O essencial do espectáculo consiste na lide de touros bravos através de técnicas conhecidas como arte tauromaquica.
A palavra tauromaquia é oriunda do grego ταυρομαχία - tauromachia (combate com touros). O registo pictórico mais antigo da realização de espectáculos com touros remete à cidade de Creta (Knossos). Esta arte está presente em diferentes vestígios desde a antiguidade clássica, sendo conhecido o afresco da tourada no palácio de Cnossos em Creta.
A maior praça de touros do mundo é a "Plaza de Toros México" localizada na cidade do México e a maior praça europeia é a "Plaza de Toros de las Ventas", em Madrid. Numa tourada, todos os touros têm pelo menos quatro anos de idade. Quando os touros lidados ainda não fizeram os 4 anos diz-se que é uma novilhada.
A lide varia de país para país, em Portugal tem duas fases: a chamada lide a cavalo e ou menos corrente a lide a pé e posteriormente a pega. A primeira é levada a cabo por um cavaleiro, lidando o touro. A lide consiste na colocação de ferros, ditos farpas, de tamanhos variáveis, começando com ferros longos e culminando frequentemente com ferros muito curtos, ditos "de palmo".

Praça de Touros do Campo Pequeno em Lisboa.
Em Portugal as chamadas touradas de morte foram proibidas no tempo do Marquês de Pombal, a mando do rei após um trágica corrida em que faleceu uma grande figura nobiliárquica estimada pelo monarca. Em 2002 a lei foi alterada para permitir os touros de morte em locais justificados pela tradição, como na vila de Barrancos.



Cortesias
As cortesias marcam o início da corrida de touros à portuguesa. No início da corrida todos os intervenientes (cavaleiros, forcados, bandarilheiros, novilheiros, campinos e outros intervenientes) entram na arena e cumprimentam o público, a direcção da corrida e figuras eminentes presentes na praça. Nas corridas de gala à antiga portuguesa a indumentária é de rigor e na arena desfilam coches puxados por cavalos luxuosamente aparelhados.
Lide a cavalo
Todo o decorrer da corrida de touros à portuguesa consiste na “lide” de seis touros, habitualmente. Cada um dos touros é lidado por um cavaleiro tauromáquico, que tem um determinado tempo durante o qual poderá cravar um número variável de farpas compridas (no início), curtas e de palmo (ainda mais pequenas) no dorso do animal.
Lide a pé
Os touros podem alternativamente ser “lidados” por um toureiro a pé (embora isto seja menos comum nas touradas portuguesas), que também crava as bandarilhas, um par em simultâneo, no dorso do touro. Outra faceta da lide a pé envolve o uso de uma pequena capa (a muleta) e de um estoque. Em Portugal é proibida a morte do touro na praça (com excepção da vila de Barrancos), mas noutros países a lide a pé culmina na morte, por estocada, do animal.
Pega

Pega de caras
Após a lide do touro pelo cavaleiro tauromáquico é comum entrar em cena o bandarilheiro que efectua algumas manobras com um capote posicionando o touro para a pega. De seguida entram em cena os Forcados. Os Forcados são um grupo amador que enfrenta o touro a pé com o objectivo de conseguir imobilizar o touro unicamente à força de braços. Oito homens entram na arena, sendo o primeiro o forcado da cara, seguindo-se os chamados ajudas, primeiro e segundo ajuda (os mais determinantes) e demais forcados que também ajudam na pega, terminando no rabejador que segura no rabo do touro, procurando deter o avanço do animal e fixá-lo num determinado local para quando os seus ajudantes o largarem este não invista sobre eles. A pega é consumada quando o forcado da cara se mantenha seguro nos cornos do touro e este seja detido e imobilizado pelos seus companheiros. Nas touradas em que os touros são lidados a pé não existe pega.

Críticas

Touro de morte, em França.
Grupos de defesa dos direitos animais criticam a prática da tourada, pois consideram-na um acto de crueldade sem justificação que não se insere dentro das tradições humanistas.
Em Portugal, quatro autarquias proibiram a realização de touradas nos seus concelhos, Viana do Castelo, Braga, Cascais e Sintra.

Curiosidades

Os elementos da minha turma que no debate das touradas afirmaram que a carne de touro não se como estão errados. No passado fim de semana dia 9 de maio de 2009 comi carne de touro. Peço desculpa não ter tirado uma fotografia a lista do restaurante mas não tinha máquina nem telemovel.

Objectivos e Estratégias para o 3º Periodo

Objectivos e Estratégias para o 3º Periodo
Objectivos: 1º- Melhorar o volume e colocação de voz.
2º- Trabalhar o meu vocabulário na discursividade e fluência de discurso.
Estratégias: 1º- Gravar as minhas leituras em voz alta com vista ao aprefeiçoamento do volume e colocação de voz.
2º- Ler mais textos críticos e trabalhar a fluência.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Contrato de leitura

Relações entre palavras: relações semânticas de equivalência e oposição




Assim o nosso tema é: relações entre palavras: elações de equivalência e oposição. A fórmula de trabalho a adoptar é trabalho duplo. A sua duração é de 30 minutos e o local é a sala de aula. A bibliografia utilizada é a seguinte Sausure; Gramática do Português Moderno; Gramática da Língua Portuguesa.

Toda a língua é constituída por um conjunto de palavras que obedecem a determinadas regras: fonéticas, morfológicas, sintácticas e semânticas.
O léxico de uma língua integra todas as palavras disponíveis não só os arcaísmos como os neologismos como ainda todas aquelas palavras que se podem formar através de processos de formação existentes nessa mesma língua.
Luís Perista, nas “Oito fichas de Gramática”, utiliza a palavra skinerianamente, advérbio de modo, formado a partir do substantivo concreto próprio skiner, linguista norte-americano; Utiliza ainda o adjectivo pavloviano para qualificar o substantivo segundos, adjectivo este formado, de novo, através do substantivo concreto abstracto Pavlov – psicólogo.
Percebemos assim que é impossível um dicionário poder abranger todos os vocábulos duma língua, podendo apenas dar conta dos vocábulos de facto existentes nessa língua, constituindo estes o vocabulário dessa língua.
“Entende-se por unidade lexical (palavra) uma unidade linguística que combina uma sequência de sons à qual se atribui um significado, possuindo um comportamento morfo-sintáctico próprio”.
Gramática da Língua Portuguesa Clara Amorim e Catarina Sousa, Areal Editores.
Dentro de uma língua existe uma unidade significativa que corresponde aos diversos conceitos que os falantes dessa língua têm relativamente aos objectos do seu mundo real. Esta unidade significativa chama-se signo linguístico e une a imagem acústica ou visual ao conceito, pressupondo um referente que é o objecto real.



SIGNO



Significado
(conceito)
Significante
Expressão fonética



Cada língua tem o seu sistema de signos resultante de uma convenção, sendo assim o mesmo conceito representado em diferentes línguas por diferentes significantes.
Relações semânticas entre palavras

Relações de equivalência
Sinonímia designa a relação de equivalência semântica que se estabelece entre duas ou mais unidades lexicais, pertencentes à mesma classe de palavras, cujo significado é considerado idêntico. A relação de sinonímia pode ser total ou parcial.
Sinonímia total: existe quando as unidades lexicais têm o mesmo significado em todos os contextos linguísticos. Muitos autores defendem a impossibilidade de identificar sinónimos totais, uma vez que a referida equivalência raramente é possível.
Exemplos: Bonito/Lindo
Feliz/Contente
Gritar/Berrar
Redigir/Escrever

Sinonímia parcial: relação de equivalência semântica que ocorre quando as unidades lexicais têm o mesmo significado em muitos contextos, mas não em todos, não sendo, portanto, substituíveis entre si em todos os enunciados. Apenas com base no contexto, é possível escolher um sinónimo, pois é necessário ter em conta o contexto geográfico (exemplo: cimbalino só é sinónimo de café na zona do Porto) e situacional (Bonita e brasa só são sinónimos no registo familiar, quando qualificam um ser humano. Exemplo: ela é bonita! Ela é uma brasa!).
Morrer e falecer não podem ser usados indistintamente em todos os contextos.
Exemplo: morrer de susto e não falecer de susto. O doente faleceu e não a planta faleceu.

Relações de oposição

A antónimia designa a relação de oposição que se estabelece entre o significado de duas ou mais unidades lexicais que podem ser relacionadas por partilharem alguns traços semânticos.
Exemplo: Gordo/Magro
Baixo/Alto
Manhã/Noite
Tristeza/Alegria

A relação de antonímia pode ser contraditória, contrária, ou conversa.

Antonímia contraditória: ocorre quando os significados das unidades se excluem mutuamente. O significado duma pode ser definido como a negação do significado de outra.
Exemplo: Homem/Mulher
Vivo/Morto
Macho/Fêmea
Presente/Ausente

Antonímia contrária: ocorre quando os significados se opõem numa escala, não havendo uma relação de implicação recíproca pelo facto de existirem relações semânticas intermédias.
Exemplo: Alto/Baixo – Alto/Médio/Baixo
Quente/Frio – Quente/Morno/Frio
Os antónimos alto e baixo representam os pólos opostos de uma escala, não havendo uma relação de implicação (X não ser alto não implica X ser baixo, uma vez que a altura é uma grandeza escalar).

Antonímia conversa:
Oposição entre unidades lexicais que podem ser substituíveis na frase desde que haja uma inversão da ordem sintáctica dos elementos básicos. A antonímia conversa ocorre no domínio das relações de parentesco (Pai/Filho), sociais (Médico/Doente), temporais e espaciais (Antes/Depois).

O presente trabalho dá conta das relações entre palavras, no que diz respeito a relações semânticas de equivalência e oposição.

Parti o pé
Azar
Ligar
Prima
Acender
São Valentim
Dia dos Namorados
Desprezo
Unir
Família


Parti o pé a jogar rugby, para meu azar liguei à minha prima que tinha acabado de acender a televisão, para saber como cativar, no dia dos namorados, dia de São Valentim porque o namorado lhe dava desprezo. Reuni a família para a unir.


Ligar Família Azar São Valentim


Telefonar Prima Parti o pé Dia dos namorados

Contactar Amor Desavença Desprezo

Acender União Reconciliação


Pôr ligaduras

Unir


Tendo dado ao meu colega apenas o verbo ligar ele escreveu contextualizando “Liguei ontem as lentes dos meus óculos para ver se as colo definitivamente”. Desta forma, verificamos que ao verbo ligar estão associados as seguintes palavras: telefonar, contactar, unir, dar carinho, acender (a televisão), ligar o dedo. Todas estas expressões têm uma relação de sinonímia.


As diferenças que o significante ligar estabeleceu estão relacionadas com o facto deste verbo ser uma palavra polissémica, isto é, tem diversos significados.


a) Para além das relações de sinonímia e da polissemia existente verificamos também uma relação de antonímia como é o caso de união/separação; sorte/azar; desavença/reconciliação.


Texto

Sexta-feira, 13 de Fevereiro, tive treino de rugby e parti o pé, para meu azar. Fui directo
Para o hospital com grande tristeza minha, tive de ligar o pé. Não tinha como ir para casa, então liguei à minha prima que mora muito perto. Como eu e ela não somos muito ligados ficou furiosa, pois tinha ligado a televisão (segundo explicou mais tarde num telefonema), no sentido de se preparar para o dia de São Valentim e saber cativar o seu namorado que não andava a ligar-lhe nenhuma, razão provavelmente, da tristeza e mau-humor da minha prima.
O telefonema com a explicação e desculpa da minha prima incomodou-nos a todos, especialmente ao meu pai que é muito chegado à minha prima. Decidimos, assim, unir aquele futuro casal, em vias de separação.
Ligamos o atrelado ao nosso jipe e proporcionamos-lhe um domingo sensacional, na Praia de Santa Cruz. O meu pai aproveitou a tarde de domingo para construir um puzzle que continha referências à família e cuja s peças o meu irmão, nessa noite, ligou. Assim este meu azar acabou por se tornar em sorte, pois tomamos conhecimento da eventual desavença dos meus primos que, em família, com amor, transformamos em união reconciliação, dissipando-se a tristeza para ressurgir alegria.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

1) Com base nestas palavras estabeleça relações de sinonímia total

a) Tristeza
b) Belo
c) Oferecer
d) Casa
e) Oferta


2) Estabeleça relações de sinonímia parcial

a) Ligar o pé _____________________
b) Ligar a Mãe ____________________
c) Unir __________________________


3) Antónimos contraditórios

a) Tristeza
b) Belo
c) Oferecer
d) Gordo
e) Construir

4) Antonímia Contrária

a) Alto - _________________
b) Quente - _______________

5) Antonímia conversa

a) O Miguel é aluno a Professora Filipa. A Doutora é________________ do Miguel
b) O Tomás deu um estojo ao irmão Bernardo. O Bernardo _________________ um estojo do Tomás.

Apreciação crítica

BIOGRAFIA

António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu em Moçambique, na cidade da Beira, em 5 de Julho de 1955. O pai, Fernando Couto, emigrante português natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, do tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dois livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique. Mia Couto publicou os primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. A questão do género literário não é, de resto, a mais importante para este autor, em cuja escrita a prosa e a poesia se conjugam e que escreve "pelo prazer de desarrumar a língua".Em 1972, foi para Lourenço Marques estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e director da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista semanal Tempo e do jornal Notícias de Maputo. O jornalismo moçambicano atravessava nessa altura uma crise profunda e alguns profissionais questionavam a eficácia do seu trabalho. Mia Couto criou entre os jornalistas da época um estilo muito próprio, anunciando a ruptura que se verificaria depois na sua obra literária. Durante muitos anos, o escritor viveu sob o fogo cruzado da guerra de libertação do seu país. De 1972 a 1975 (data da independência de Moçambique) participou na guerra como membro da Frelimo, a frente de libertação liderada por Samora Machel, o que o obrigou à clandestinidade. Em 1985, regressou à Universidade de Eduardo Mondlane, em Lourenço Marques, para se formar em biologia. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca. Actualmente dedica-se a pesquisas nesse âmbito, exercendo também, como biólogo, a profissão de professor universitário, além de dirigir uma empresa de estudos sobre impacto ambiental.


OBRA

Mia Couto é, sem dúvida, uma referência no campo da literatura de expressão portuguesa, sendo actualmente o escritor moçambicano mais conhecido no exterior. A sua obra tem como tema principal a vida do povo moçambicano, um dos mais pobres do mundo, tendo passado por uma guerra civil de trinta anos e onde persiste uma forte tradição de transmissão da literatura e dos saberes essencialmente por via oral. Numa cultura onde se diz que "cada velho que morre é uma biblioteca que arde", Mia Couto tem uma escrita que liga a tradição oral africana à tradição literária ocidental, ligando o saber ancestral sobre o espírito das árvores e das plantas à moderna ciência da Ecologia. “Eu guardo na minha infância, assim, uma coisa muito esbatida, um ponto de referência, as histórias que me eram contadas, dos velhos que moravam perto, vizinhos do outro lado da rua, de um outro mundo, e eu recordo esse mundo encantado até algumas histórias, sobretudo como eles me deixaram uma marca.” (in Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas). O seu estatuto incontestado deve-se não só à forma como aborda os problemas e a vida quotidiana do Moçambique contemporâneo, mas principalmente à criatividade da sua escrita, numa permanente descoberta de novas palavras, através dum processo de mestiçagem entre o português "culto" e as variantes dialectais introduzidas pelas populações moçambicanas. Mia Couto é, assim, uma espécie de mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa.


PUBLICAÇÕES

Raiz de Orvalho – 1999 (poesia)

· Publicado pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) em 1983.
· Livro intimista, lírico, uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária.
Vozes Anoitecidas – 1987 (contos)
Cronicando – 1991 (colectânea de crónicas)
· Este livro reúne crónicas de Mia Couto publicadas na imprensa moçambicana no final da década de 80.
Cada Homem é uma Raça – 1990 (contos)
· "Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia." (excerto de uma história do livro).
Terra Sonâmbula – 1992 (romance)
· Primeiro romance publicado por Mia Couto, tem como pano de fundo a guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Estórias Abensonhadas – 1994 (contos)
· Livro de histórias que retrata o renascer do país depois da assinatura do Acordo de paz.
A Varanda do Frangipani – 1996 (romance)
· O tema que se encontra subjacente nesta obra (que teve uma grande aceitação, quer por parte da crítica, quer por parte do público) é do tráfico de armas, num período inicial de recuperação da guerra.
Contos do Nascer da Terra – 1997 (contos)

Mar me quer – 2000 (romance)

· Este livro foi inicialmente incluído na Colecção 98 Mares, no âmbito da Expo 98.
Vinte e Zinco – 1999 (romance)
· Este livro surgiu de uma iniciativa da Editorial Caminho que visava assinalar o 25º Aniversário do 25 de Abril, estando, assim, relacionado com este tema.
· "Vinte e cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento. Para nós, negros pobres que vivemos na madeira e zinco, o nosso dia ainda está por vir.” (excerto da obra).

O Último Voo do Flamingo – 2000 (romance)

· Este livro é outro dos grandes romances.

Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos – 2001 (contos)

O Gato e o Escuro – 2001 (contos)

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra – 2002 (romance)



PRÉMIOS

Prémio Anual de Jornalismo, Cronicando, 1989.
Grande Prémio da Ficção Narrativa, Vozes Anoitecidas, 1990.
Prémio de Literatura, da Associação de Escritores Moçambicanos, Terra Sonâmbula, 1995 .
Prémio da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo, 1996 .
Prémio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, O Último Voo do Flamingo, 2002.

Em 1998, Mia Couto foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito como sócio correspondente. Foi o primeiro escritor africano de língua portuguesa a ingressar naquela instituição tendo a sua admissão sido decidida por unanimidade.





Apreciação crítica da obra “Cada Homem É Uma Raça”

Verificamos, então, que a vasta obra de Mia Couto engloba não só o género lírico como ainda o género narrativo. Dentro deste género temos romances e algumas colectâneas de contos. Neste universo da sua obra, o livro em análise, “Cada Homem é Uma Raça”, é também um conjunto de contos imbuídos de cultura moçambicana onde o sobrenatural tem um papel preponderante. Com efeito perpassa por toda a obra a crença em forças que estão acima do humano, forças essas que, ora vaticinam sobre as desgraças que vão abater sobre um povo caso do conto A Lenda da Noiva e do Forasteiro, ora arrebatam personagens por entre labaredas como é o caso de Tiago personagem do conto O Embondeiro que Sonhava Pássaros. A miscelânea entre a cultura europeia e a cultura africana verifica-se também a nível linguístico. A este nível são de três ordens as alterações verificadas: fuga à norma – padrão do português europeu, uso de unidades lexicais pertencentes ao crioulo de Moçambique e utilização de palavras “criadas” pelo narrador.

A. Fuga à norma padrão do português europeu

Em todos os contos o narrador, tenha ele um estatuto homodiegético ou heterodiegético foge sistematicamente à norma, podendo ser agrupados os seguintes casos:
· Uso do pronome pessoal forma de complemento indirecto (lhe/lhes) em vez do pronome pessoal forma de complemento directo (o/a, os/as);
· Colocação do pronome pessoal forma de complemento em posição proclítica isto é, antes do verbo ( exemplo: se decidiu em vez de decidiu-se);
· Uso da dupla negativa.



B.Uso de unidades lexicais pertencentes ao crioulo de Moçambique

Apocalipse Privado do Tio guegê: Shote-kulia, Capulana e Ndoé.

Rosalinda, a Nenhuma: Mulala, xipefoe e xicadjú.

O embondeiro que sonhava pássaros: Muska, Mesungueiro.

A princesa russa: Mainatos, Cubata, Cabedula, Compounde, Moleque.

O pescador cego: Concho.

O ex-futuro padre e sua pré-viúva: Kongolote, Chissila, Cushe-cushe.

A lenda da noiva e do forasteiro: Matopada, Nenecar, Lobolo, Cocorico, Kulimando.

Sidney Poitier na barbearia de Filipe Beruberu: Maçaniqueira, Chimandjemandje, Bula-bula, Dákámaus, Mesire, Mezungo, Xikaka, Muana, Custumunha, Shingrese, Kóbiri, Sabola, Raranja, Sabau, Fódia, Canganhiça, Saguate, Matambira, Baba, Plásticos, Fé-de-Cristo, Milandos.

Os mastros do Paralém: Mussodja, Iripo, Canhangulo, Satanhoca, Sacudu, Chamboco, Xicuembo, Espera-pouco, Fungula masso.


C. Utilização de palavras “criadas” pelo narrador - Neologismos

Desconseguir, movente, ademorar, passarinheiro, braqueza, permanecida, compaixonada, ruar, oractivo, distractividades, respirarear, imovente, sograria, exdiferença, penumbrar-se, malvorar-se, omniausência, futurivel, tranquilar-se, intromissionario, sonecar, escutantes, ladrepiar, estórias, indecidir, transpiexpirar, malfazedor.

Para uma total identificação com os valores culturais do povo moçambicano o narrador é personagem em quase todos os contos, uma vez que só o uso da primeira pessoa transmite a cumplicidade vivida entre o narrador e restantes personagens. No caso do conto A Princesa russa o narrador para além de homodiegético é autodiegético, para que a simbiose cultural seja mais conseguida. O discurso indirecto livre é também largamente utilizado neste conto com o mesmo objectivo: o da comunhão plena. São poucos os casos em que o narrador é heterodiegético sendo exemplo desta situação são os contos: Rosalinda, a nenhuma, O embondeiro que sonhava pássaros e O pescador cego (Começa por ser Homodiegético e só passa a heterodiegético a partir do terceiro parágrafo), Os mastros do Paralém, Sidney Poitier na barbearia de Filipe Beruberu.



Conclusão

Estamos perante um escritor a que podemos chamar da terra, sendo esta não só a moçambicana, mas sim o mundo inteiro, uma vez que os valores e os sentimentos são comuns a todo o humano, esteja ele em que lugar for do universo. A relação que cada indivíduo tem com a sua própria terra, no que ela tem de mais intimista é nesta obra explorado, sentindo nós o palpitar das emoções, das alegrias, dos sofrimentos do ser humano. A sua linguagem extremamente rica em neologismos confere aos seus contos a qualidade de percepção da beleza interna das coisas. O recurso ao sobrenatural, ao fantástico envolvem-nos da ambiência do sonho – dominador comum das suas histórias.

AUTO-AVALIAÇÃO

Acho que mereço um 13 porque tentei trabalhar os objectivos propostos por mim neste periodo apesar de não ter cumprido o prazo de algumas publicações de trabalhos de aula pois tive o computador estragado.